30mar
2017
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A Bela e Fera: diferentes versões

Diversas culturas conhecem a história da Bela e a Fera em que a mulher era obrigada a casamentos impostos, arranjados e esse conto tentava amenizar tal prática.
A mais antiga versão conhecida foi publicada no século II d.C., Eros e Psique, do livro Metamorfoses de Lúcio ou O asno de ouro escrita por Apuleio de Madaura. Em Eros e Psique, a fera só é fera segundo os rumores e Eros consegue abrandar a fera por compaixão e atitudes diferenciadas.
A versão mais conhecida foi publicada em 1756 por Madame de Beaumont numa revista dedicada a meninas e moças para instrui-las quanto ao bom comportamento e boas maneiras, pois Bela preferiu as virtudes às aparências, já suas duas irmãs são invejosas, maliciosas com coração duro, por isso foram transformadas em estátuas de pedra.
Madame de Beaumont ou Jeanne-Marie Leprince de Beaumont fez uma versão mais condensada da obra de uma escritora francesa Gabrielle-Suzanne Barbot de Gallon de Villeneuve que escreveu contos para entreter seus amigos. A versão de Madame de Beaumont é a mais conhecida e serviu de base para tantas interpretações que conhecemos hoje.
Em diversas partes do mundo, o conto A Bela e a Fera apresentam versões e nomes diferentes, com a mesma essência. Na China, eles conhecem A Serpente Encantada em que o pai sai em busca de flores para as três filhas e se depara com a serpente… No conto sul-africano, A Cobra de Cinco Cabeças, a filha mais nova se casa com uma serpente e depois a moça liberta o guerreiro aprisionado em feitiço… A versão norueguesa A Leste do Sol e a Oeste da Lua, a garota precisa ser convencida a se casar com um urso branco… As beldades dessas histórias acabam se sacrificando por seus pais e concluindo que os sentimentos de amizade, respeito, admiração e gratidão são necessários para um bom casamento. Enfim, vários lugares apresentam histórias semelhantes, possiblidades cômicas, sátiras sócias e irônicas como a noiva que se casa com porco, que na realidade é um marido sujo…
As versões não ficaram apenas nos livros, o teatro e o cinema também fizeram inúmeras versões como em desenho animado, e ultimamente os live-action.
Em 2014 foi lançado um longa-metragem francês com Léa Saydox como Bela e Vicent Cassel como Fera. No filme, a maldição da fera foi lançada por um deus da floresta, por ter caçado a corça dourada, uma ninfa do bosque. O príncipe foi condenado a viver como fera até que encontrasse um amor verdadeiro. Além desse, outros pontos diferenciam essa versão do original: cachorros que se transformam em criaturas mágicas, a trama é narrada para duas crianças de forma a ressaltar o lado do conto de fadas e ao mesmo tempo, brincar com a possibilidade de ser real.
Agora em 16 de março, a Disney lançou A Bela e a Fera em 3d com Emma Watson como Bela, Dan Steves como Fera, Luke Evans com Gaston e Emma Thompson como Sra Potts…
Nesta versão, Bela não tem nem irmãs, nem irmãos e o pai não é comerciante rico que perde tudo e vão morar no campo. O pai é apenas um pobre inventor. Ambos vivem em uma pequena aldeia francesa, que repudia a Bela por ser diferente, a única mulher da aldeia que sabia ler.
Um belo dia, o pai sai em uma charrete e promete trazer uma rosa a Bela. Ele se perde numa tempestade de neve e num caminho estranho encontra uma matilha de lobos famintos, foge agora em seu cavalo e encontra um castelo abandonado. Diferenças: profissão do pai, charrete, lobos….
No palácio, se serve de um jantar, mas abandona tudo assustado quando encontra objetos falantes que se movimentam como pessoas. Características típicas da versão Disney. Ele foge correndo e vê rosas no jardim, pega uma. Nesse momento, aparece a fera enfurecida e prende o pai no calabouço. O cavalo volta sozinho para casa, assim Bela percebe que acontecera algo errado com o pai e vai ajudá-lo. Ela encontra a fera, que conta que fora amaldiçoada. Bela troca de lugar com o pai, que vai embora do palácio.
Tudo diferente:
– O pai retorna à aldeia e pede ajuda aos aldeotas e Gaston, que não existe no original, se oferece a ajudar o pai de Bela. Eles não encontram o caminho para o palácio e Gaston imagina que o pai está louco e o abandona na floresta.
– Do outro lado, lá no palácio, os objetos falantes tentam convencer a Fera a ser gentil com a Bela e convencê-la a ficar com a Fera já que o encanto está se acabando e as pétalas da rosa encantada estão caindo. Assim a maldição irá se concretizar e todos nunca mais se tornarão humanos. A Bela não ficou convencida e foge. No caminho, encontra a matilha, mas é salva pela Fera, que é cuidada pela Bela, já que os lobos machucaram muito a fera.
– Bela e Fera passam a se entender melhor. Até baile, os objetos falantes: o candelabro, o espanador, o relógio, o samovar e seu filho a xícara, o guarda-roupa, o cravo e a banqueta, todos prepararam tudo para Bela e Fera se envolverem.
– Uma mendiga encontra o pai de Bela e o ajuda. O pai denuncia Gaston que junto com seu escudeiro efeminado (primeiro gay da Disney, que tem causado polêmica em alguns países), ambos desmentem o pai de Bela, chamam-no de louco e o prendem para leva-lo ao manicômio.
– Bela tem saudades do pai e vê no espelho mágico que ele está preso. Volta à aldeia para salvá-lo e confirma toda história que o pai contara.
– Gaston prende Bela junto com o pai e incita os aldeões a matarem a fera. Vão todos e invadem o castelo, mas foram vencidos pelos objetos falantes enfeitiçados. Apenas Gaston vai atrás da Fera. Ele a fere e acaba caindo do alto da torre. Com a ajuda da Bela e da mendiga, que na realidade era uma feiticeira, os objetos falantes ganham vida voltando a ser humanos. Fera volta à vida como príncipe, dono daquele maravilhoso castelo. Tudo é reconstruído. O sol volta a brilhar. As pessoas da aldeia participam da grande festa da Bela e da Fera, agora um belo príncipe.
Com tantas diferenças o que fica da Bela e a Fera é a essência do conto para meditarmos sobre o que valorizamos num cônjuge.
O filme A Bela e a Fera em 3d não foi fiel ao original de Madame Beaumont, mas nos faz vivenciar uma história de amor. Para Shakespeare, o amor transforma pessoas comuns em seres raros e perfeitos. O amor é o melhor sentimento que duas pessoas podem compartilhar.

Bibliografia:
Contos de fadas de Perrault, Grimm, Andersen e outros – apresentação de Ana Maria Machado; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
Contos de fadas: edição comentada e ilustrada /edição, introdução e notas Maria Tatar; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

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