02nov
2020
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O Noivo Caveira

O NOIVO CAVEIRA

No tempo dos contos de fadas e outras histórias em que tudo era estranho, vivia, bem distante de uma cidadezinha, um viúvo e suas três filhas. Ele passava muito tempo fora de casa, pois seu trabalho assim exigia. As três belas jovens ficavam muito sozinhas.

Em uma tarde, as três ouviram um barulho horripilante lá na rua: crec, crec, crec,crec, crac… Acharam estranho. Correram até a janela. Levaram um terrível susto quando viram uma caveira subindo a rua. De repente, a caveira parou e ficou olhando para elas, sem dizer nada.

A filha mais velha ficou apavorada e sussurrou: Credo…Deus me proteja!

A do meio fechou os olhos, reclamou muito: o que ela quer conosco? E saiu correndo.

Já a mais nova continuou olhando para a caveira retrucando para as irmãs:

–  Como vocês são bobas? Ela não é má, deve apenas querer conversar com alguém.

A caçula era a mais corajosa e ponderada das três.

A partir desse dia, todas as tardes, no mesmo horário, às 3 horas, a caveira subia a rua, parava diante da casa das jovens, ficava olhando, não dizia nada e ia embora tranquilamente, mas sempre fazendo o som apavorante: crec, crec, crec, crac…

Sempre no mesmo horário, a irmã mais velha e a do meio com os cabelos arrepiados se escondiam e colocavam as mãos nos ouvidos para não ouvir o crec-crec… Enquanto a mais nova ficava na janela esperando a caveira passar e chegava a tentar um contato:

– Boa tarde, senhor Caveira! Tudo bem?!

A caveira apenas olhava, nada respondia.

E assim aconteceu diversos dias…

Até que o pai das jovens retornou de viagem. Assim que ele chegou, as mais velhas contaram assustadas o que estava acontecendo. As duas morriam de medo, já a caçula disse ao pai:

– A caveira não é assustadora, não faz nada, apenas observa. Sabe pai, muitas vezes as aparências enganam. Devemos ter medo dos vivos, não dos mortos. Talvez a caveira precise de uma ajuda… Sei lá…

O pai ficou bastante intrigado.

No dia seguinte, no mesmo horário, a mesma situação: sons apavorantes; as filhas mais velhas se escondendo; a mais nova querendo cumprimentar a caveira. Mas o pai estava na porta da casa e disse:

– Boa tarde!

A caveira, agora, falou com o pai das meninas:

– Boa tarde! Gostaria de conversar com o senhor.

O pai convidou o senhor Caveira para entrar e sentar-se para conversarem. A caveira imediatamente falou o que pretendia:

– Estou querendo me casar e procuro uma esposa. Como o senhor tem três filhas, acredito que uma possa se interessar em se unir a mim.

O pai ouviu tudo e achou estranhíssimo o pedido. Pensou muito e encontrou uma saída:

– Não posso obrigar minhas filhas a se casarem. Preciso perguntar a elas.

O pai estava absolutamente certo da resposta que dariam.

Perguntou bem alto para a filha mais velha, que estava bem escondida. Ela respondeu prontamente, gritando enfaticamente.

– NÃO!

O pai então perguntou a do meio e a resposta foi a mesma, sem que o pai, ao menos, terminasse a pergunta. Para a surpresa paterna, quando perguntou para a mais nova que estava na sala a seu lado, a resposta dela foi um SIM.

O pai da moça não disse absolutamente mais nada. Apenas marcaram a data do casamento, acertaram os detalhes da cerimônia, da festa, enfim, dos preparativos. A caveira deu o dinheiro e pediu que eles providenciassem tudo, pois ela só voltaria no dia marcado para o casamento.

Assim foi feito. O pai e as irmãs não acreditavam no que estava acontecendo. Tentaram de todas as formas tirar da cabeça da caçula essa ideia maluca de se unir a uma caveira. Todas as tentativas em vão…

No dia combinado, a caveira e todos seus convidados apareceram. Todos eram caveiras. Estavam elegantemente trajados.

A caveira falou que a cerimônia seria em sua residência. Foram todos em um cortejo para o inusitado casamento. As irmãs mais velhas estavam apavoradas, já a caçula, extremamente feliz e radiante. As duas inconformadas comentavam:

– Coitada! Deve estar louca! Não sabe o que está fazendo!

Ainda tentaram pela última vez, fazê-la desistir de tal loucura.

E o cortejo continuava…

Até que avistaram uma casa assustadora. A caveira pediu que todos parassem, pois haviam chegado. As duas irmãs quase choraram quando viram a casa e o que a caçulinha ia viver dali para frente.

A caveira disse para a noiva:

– É aqui que nós vamos viver nossa história de amor! Entre com o pé direito e em hipótese nenhuma, olhe para trás, minha paixão!

O pai e as duas irmãs apavorados, preocupados, perguntaram chorando à noiva:

– Tem certeza! É isso que você quer?

– Sim! ela respondeu firmemente.

A garota entrou à casa da caveira com o pé direito, segura da decisão tomada, sem olhar para trás. Assim que adentrou, coisas muito estranhas aconteceram: o hall de entrada era deslumbrante, a residência inteira era um palácio; os convidados se transformaram em condes condessas, duques e duquesas, um luxo só; o senhor caveira voltou a ser um elegante e belo príncipe; as irmãs ficaram boquiabertas e mortas de inveja, beliscavam-se para ver se estavam sonhando.

O príncipe agradeceu gentilmente à jovem que aceitando-o como marido, quebrara o encanto e tudo voltava à vida: a realeza, a nobreza e até o palácio. Beijou-a extremamente grato e feliz.

A cerimônia aconteceu, a festa animada durou horas. A felicidade e alegria do casal e da nobreza transbordavam pelo palácio. Eles foram muito felizes!

Quanto às duas irmãs: estão com calos nos cotovelos de tanto ficar à janela, à espera de outra caveira encantada. Dizem até que elas perderam o medo e regularmente visitam cemitérios à procura de alguma caveira sinistra. Mas isso nunca aconteceu!

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